a culpa do massacre

Debra Guzman (debra@igc.apc.org)
Mon, 23 Aug 1993 13:40:00 PDT


/* Written 2:56 pm Aug 20, 1993 by cptnac@ax.apc.org in igc:ax.brasil */

NOTA `A IMPRENSA

A CULPA DO MASSACRE DOS YANOMAMI

O Secretariado Nacional da Comissa~o Pastoral da Terra - CPT -
une-se `a indigna<a~o dos que ainda sa~o capazes de indignar-se,
perante o massacre de sete crian<as, cinco mulheres e dois homens
Yanomami da aldeia Homoxi/Itu, em Roraima. Jornais de hoje indicam
que o nu'mero de mortos pode chegar aos 40. Fazemos nossa a
interpreta<a~o dada pelo Procurador Geral da Repu'blica, Aristides
Junqueira, de que os Yanomami esta~o sendo vi'timas de "genoci'dio: a
multiplicidade de homici'dios de uma determinada etnia e', sem
du'vida, genoci'dio."
Como destaca o Conselho Indigenista Missiona'rio - Cimi, em sua
nota de 19 de agosto, "o massacre ocorre no momento em que e' movida
no Brasil campanha contra o direito dos povos indi'genas `a terra. Com
o pretexto de defender a soberania brasileira, empresa'rios e
parlamentares de Roraima, Estado onde se localiza a a'rea Yanomami,
ve^m se pronunciando contra a demarca<a~o das terras deste povo. No
Congresso, o deputado Ni'cias Ribeiro, do Estado do Para', chegou a
propor uma emenda `a Constitui<a~o, que proi'be a demarca<a~o das
terras indi'genas localizadas na fronteira" (Nota do Cimi, 10/08/93).

Por este crime,responsabilizamos estes e outros que negam aos
povos indi'genas a liberdade de existir como povos numa sociedade
multi-e'tnica.
Responsabilizamos tambe'm os que se omitem ou que, mesmo na~o
tendo interesses especi'ficos contra'rios a esses povos, tambe'm
respaldam tais a<des, defendendo o equivocado lugar comum de que "os
i'ndios na~o precisam de muita terra."
Responsabilizamos sobretudo o modelo poli'tico-econo^mico
neoliberal cuja propalada modernidade tem produzido frutos como, ale'm
do cotidiano massacre da maioria pela fome e marginaliza<a~o, as
chacinas recentes do Carandiru e da Candela'ria, e agora a dos
Yanomami.
Esta nossa solidariedade aos Yanomami expressa o nosso desejo e a
nossa proposta de que a seguran<a nacional na~o seja fruto de projetos
como o Calha Norte e de uso da for<a militar, mas da participa<a~o
consequente de todos os brasileiros, e de uma rela<a~o de amizade e
dia'logo intercultural com os povos indi'genas.
A amizade com estes povos somente sera' possi'vel quando as
autoridades brasileiras, regionais e nacionais, promoverem as
transforma<des necessa'rias para que a popula<a~o do Pai's,
especialmente os garimpeiros pobres, tenham alternativas de
sobrevive^ncia, sem necessidade de invadir as a'reas indi'genas.

Goia^nia, 20 de agosto de 1993

Comissa~o Pastoral da Terra

- Secretariado Nacional -