O genocidio dos Yanomami

Debra Guzman (debra@igc.apc.org)
Wed, 25 Aug 1993 14:41:00 PDT


/* Written 2:05 pm Aug 25, 1993 by ifas@ax.apc.org in ax.brasil */

O GENOCI'DIO DOS IANOMAMI

"Morro a morte mais longa
a espantosa morte
de um Continente."

A esta altura ningue'm mais podera' afirmar com seguran<a
quantos foram os Ianomamis assassinados na aldeia Haximu, em Roraima. Os
corpos desapareceram, embora a a'rea esteja militarizada desde o momento
da denu'ncia. Todos que entraram na a'rea desde enta~o, entraram sob o
controle das autoridades militares, menos, e' o que se deduz, aqueles
interessados em "limpar a a'rea" de qualquer vesti'gio que venha a
servir de prova do crime hediondo que ocorreu ali. Sabe-se que
mulheres e crian<as foram decapitadas. Sabe-se que as malocas foram
incendiadas. Sabe-se que foram garimpeiros, os executores do massacre.

Primeiro, a indigna<a~o diante de mais este ato da
trage'dia continuada que se arrasta ha' 500 anos. Uma trage'dia que ja'
na~o consegue comover a sociedade brasileira e na~o tem resultado em
poli'ticas eficazes de prote<a~o a`s comunidades indi'genas por parte do
Governo Federal.

O genoci'dio das popula<o~es indi'genas no Brasil,
evidentemente, na~o come<a nem se esgota com o brutal assassinato dos
Ianomami de Haximu. Antes, para na~o retrocedermos demasiado no tempo, o
pai's ficou assombrado com o massacre dos Cinta-Larga, no paralelo 11,
em 1963. Ha' poucos anos as vi'timas foram os Tikuna. Ate' hoje a
justi<a brasileira na~o se pronunciou. Ou, quando o fez foi, por
exemplo, para absolver o assassino do li'der Guarani, Mar<al de Souza
(Tupa~-y), no Mato Grosso do Sul, ha' alguns meses. Produziu com seu
sile^ncio ou com seu esti'mulo as condi<o~es para novos massacres. Esse
e outros que vira~o, caso na~o se alterem as atuais condi<o~es.

A invasa~o desordenada das a'reas indi'genas mascara uma
lo'gica perversa que preside o processo de expansa~o das fronteiras
internas do pai's. A moderniza<a~o conservadora da agricultura
brasileira produziu altas taxas de concentra<a~o fundia'ria, acelerou o
e^xodo para os grandes centros - cerca de 32 milho~es de pessoas foram
empurradas do campo para as cidades em menos de 30 anos - e deslocou
importantes contingentes populacionais formados por agricultores de
quase todas as regio~es do pai's para a Amazo^nia.

Essa onda migrato'ria significou um impacto forti'ssimo
sobre as popula<o~es indi'genas - neste pai's em que a memo'ria dos
oprimidos foi saqueada pelos mesmos exploradores de suas riquezas,
poucos se lembrara~o da morte silenciosa dos Nhambiquara durante a
pavimenta<a~o, e "corre<a~o do curso" da BR 364 para dentro do seu
territo'rio, em Rondo^nia - devastando a mata para vender a madeira,
ocupando vastas extenso~es de terra para cria<a~o de gado e revolvendo o
subsolo em busca de minerais. Quando algue'm se detiver para contar a
Histo'ria das popula<o~es indi'genas no Brasil neste u'ltimo quarto do
se'culo XX, podera' resumir em tre^s as ferramentas do genoci'dio: a
moto-serra, a pata do boi e o mercu'rio. Manejados, as tre^s, pelas
ma~os de homens rudes, garimpeiros, posseiros, aventureiros em busca de
oportunidades, realizando interesses de latifundia'rios, madeireiras e
empresas mineradoras.

O que vemos estarrecidos hoje com os Ianonami, em
Roraima, ocorreu ontem em Rondo^nia com os Cinta-Larga e Surui', na
regia~o da Para'-Maranha~o com os Tembe' ou com os Arara na
Transamazo^nica. E' a reprodu<a~o eficaz de um me'todo dos
latifundia'rios, madeireiras e mineradoras quando se lan<am contra os
territo'rios indi'genas. Jogam oprimidos contra oprimidos. Misera'veis
contra misera'veis. E, finalmente, se apoderam do territo'rio e das
riquezas sobre o massacre dos povos indi'genas e a expulsa~o posterior
dos posseiros ou dos garimpeiros para a pro'xima fronteira.

Tais interesses se articulam com uma ultrapassada
concep<a~o de Seguran<a Nacional alimentada por setores militares que
ve^em a demarca<a~o das terras indi'genas nas a'reas de fronteira como
uma permanente amea<a a` soberania nacional. Tais setores militares,
na~o raro, da~o suporte a uma malta de poli'ticos inescrupulosos que se
elegem no Estado com o dinheiro dos garimpos, das mineradoras ou das
madeireiras. E' nessa articula<a~o de interesses que se deve procurar os
responsa'veis pelo genoci'dio dos povos indi'genas no Brasil,
particularmente do povo Ianomami.

A Constitui<a~o Federal determina a demarca<a~o dos
territo'rios indi'genas em cinco anos. O prazo expira em outubro
pro'ximo. Ale'm da demarca<a~o, a sociedade brasileira exige o respeito
a`s terras demarcadas e a`s riquezas vegetais e minerais que elas
abrigam. O respeito a` cultura e a` autodetermina<a~o dos povos
indi'genas. O fim da barba'rie.

Para que o Brasil recupere a condi<a~o de pai's
civilizado diante dos povos do mundo, exige-se do governo a imediata
localiza<a~o prisa~o e puni<a~o dos responsa'veis enquadrando-os em
crime de lesa-humanidade. Este na~o e' um imperativo apenas para o
governo brasileiro . E' uma exige^ncia para toda a sociedade. E'
necessa'rio, e urgente, romper aquela lo'gica que em nome da explora<a~o
econo^mica e do lucro imediato produz monstruosidades como essa.

E' preciso que a sociedade brasileira compreenda - e lute
- para que neste pai's de riquezas incalcula'veis se assegure o lugar
para os diferentes. No Brasil ha' lugar para os sobreviventes da morte
deste Continente. Ha' lugar para os simples, para os que aceitam
ingenuamente o convite para comer arroz com a<u'car, para os filhos da
terra.

As crian<as decapitadas de Haximu o exigem!

Goinia, 25-8-93 Hamilton Pereira
Presidente do IFAS