COMEGA A SER ESCLARECIDA
A CHACINA DE I'NDIOS YANOMAMI
As dzvidas sobre a chacina dos Yanomami comegaram a ser
esclarecidas. Segundo o Exe'rcito e a Polmcia Federal, as mortes
teriam ocorrido na Venezuela, a 15 quilo^metros da fronteira com o
Brasil. Dezoito i'ndios teriam sido assassinados, conforme levantamento do
antropo'logo Bruce Albert, da Universidade de Brasi'lia, que ha' va'rios
anos realiza pesquisas entre os Yanomami. Os autores do massacre
foram garimpeiros brasileiros.
O procurador-geral da Repu'blica, Aristides Junqueira, continua
afirmando que houve genoci'dio. As novas informa<o~es fizeram com que
a Procuradoria da Repu'blica do Brasil assinasse esta semana um acordo
de coopera<a~o te'cnica com a Procuradoria da Venezuela. O Brasil
devera' fornecer todas as informa<o~es necessa'rias para que
investiga<o~es tambe'm sejam realizadas no Pai's vizinho.
Os dados abaixo, que ajudam a entender o caso, constam do
relato'rio preparado pelo antropo'logo e entregue `a Procuradoria Geral
da Repu'blica, que o repassou ao Cimi.
LOCAL DO MASSACRE: as mortes ocorreram em uma ro<a antiga pro'xima ao
rio Hwaximeu, afluente do rio Orinoco, na Venezuela. As duas
malocas destrui'das pelos garimpeiros eram habitadas pelos Hwaximeutheri
e localizavam-se em um igarape' nas cabeceiras do Hwaximeu. Haximu, como
vem sendo chamado o local, e' uma corruptela de Hwaximeu. Falou-se
inicialmente que as mortes teriam ocorrido em Homoxi porque as
primeiras informa<o~es sobre o massacre foram fornecidas por Yanomami
de Hoomoxi `as freiras da Missa~o Xide'ia, localizada no lado brasileiro.
O CRIME: os Hwaximeutheri, como sa~o chamados os Yanomami que viviam
nas duas malocas de Hwaximeu, acamparam por volta do dia 22 e 23 de julho
na antiga ro<a. Eles esperavam o convite para uma festa na maloca
dos Makayutheri. Dormiram uma noite no local; de manha~ chegaram dois
jovens convidando-os. Como a festa havia come<ado, os homens e algumas
mulheres foram na frente. Ficaram no acampamento mulheres, crian<as e um velho.
Nesse mesmo dia a maioria dos Yanomami que havia ficado saiu para
coletar frutas; ficaram no local treze pessoas. Por volta do meio-dia
o acampamento foi atacado por garimpeiros, que assassinaram os treze
i'ndios. Os adultos foram mortos a tiros e mutilados com faca~o. As
crian<as, com golpes de faca~o no peito, na cabe<a e degoladas. Uma
velha morreu por causa dos pontape's. Foram assassinados um homem,
tre^s mulheres, tre^s adolescentes do sexo feminino e seis crian<as.
Tre^s Yanomami ficaram feridos.
Com os gritos, duas mulheres que participavam da coleta correram para
a maloca dos Makayutheri, onde se realizava a festa, e avisaram sobre o
ataque. Os homens de Hwaximeutheri deixaram a maloca e chegaram no local
da chacina ao anoitecer. Encontraram os cada'veres mutilados espalhados
pelo cha~o, restos de tiros por todos os lados e marcas de chuteiras
deixadas pelos garimpeiros. As mulheres que se salvaram preparavam os
pertences dos mortos para a crema<a~o ritual.
Os corpos foram cremados na manha~ do dia seguinte pelos homens. As
cinzas dos ossos foram recolhidas em caba<as para a continuidade do
ritual funera'rio. Apenas um corpo ficou no local; era de uma mulher
de meia-idade que, por pertencer a outra maloca, na~o tinha parentes entre
os Hwaximeutheri. Segundo os depoimentos dos sobreviventes, e' prova'vel que
os garimpeiros tenham voltado ao local, esquartejado o corpo dessa mulher e
o jogado no rio, pois manchas de sangue foram posteriormente encontradas.
Eles teriam retornado para apagar as provas do massacre; foi quando
teriam colocado fogo nas duas malocas.
Apo's a crema<a~o, os Yanomami fugiram para a maloca do Makos, no alto
rio Toototobi, localizada em territo'rio brasileiro e distante dos
garimpeiros. Passaram antes por quatro malocas situadas na Venezuela.
Segundo relataram os sobreviventes a Bruce Albert, os garimpeiros
esta~o furiosos por na~o terem matado os homens da aldeia e, por
isso, pretendem atacar novamente.
ANTECEDENTES DA CHACINA: cerca de dois meses atra's um grupo de
seis Hwaximeutheri foi ate' um acampamento de garimpeiros que lhes
tinham tomado uma espingarda. Na~o conseguiram recuperar a arma; os
garimpeiros disseram-lhes para irem embora e que um grupo yanomami inimigo
os atacaria. Os indios foram seguidos no mato pelos garimpeiros, que
os atacaram; cinco Hwaximeutheri foram assassinados. Um adolescente
escapou, apesar dos ferimentos de bala.
Posteriormente, guerreiros yanomami de quatro malocas realizaram
uma expedi<a~o para vingar as mortes; um garimpeiro foi morto.
Entre os dias 22 e 23 de agosto, quando os Yanomami das duas
malocas Hwaximeutheri se deslocavam para a antiga ro<a, onde esperariam
o convite para a festa em Makayutheri, tre^s guerreiros foram em dire<a~o
ao acampamento dos garimpeiros; eles pretendiam vingar a morte dos
cinco Yanomami. Um garimpeiro foi morto. O ataque aos Yanomami ocorreu no
dia seguinte, quando a maioria deles ja' havia sai'do em dire<a~o `a maloca
dos Makayautheri, que realizariam a festa.
OS ASSASSINOS: dois sobreviventes identificaram como participantes
da chacina os garimpeiros conhecidos como: Boca Rica, Chico, Ceara',
Parana', Piaui', Cantina, Joa~o Neto, Goiano, Gau'cho, Elias, Jabuti,
Rocha, Baiano, Maneu, Chaparral, Pica~o, Uiuiu, Joa~o, Cururu, Zeca,
Geni, Paulista e Paulo. A Poli'cia Federal e a Funai (Funda<a~o Nacional
do I'ndio) afirmam que os garimpeiros sa~o brasileiros devido, entre
outras coisas, `a muni<a~o que utilizaram e as chuteiras (que facilitam
as caminhadas na floresta). Ha' va'rios barraco~es de garimpeiros
brasileiros ao longo do rio Orinoco, na Venezuela. Duas pistas de
pouso clandestinas foram construi'das na regia~o pelos invasores.
O Cimi (Conselho Indigenista Missiona'rio) esta' preocupado com os
rumos que o caso vem tendo. Ao inve's de se verificar os responsa'veis
pela chacina, e processa'-los criminalmente, discute-se no Brasil quem
e' culpado pela divulga<a~o dos nu'meros imprecisos de i'ndios mortos.
Brasi'lia, 2 de setembro de 1993
Cimi - Conselho Indigenista Missiona'rio